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Cerveja nossa de cada dia

Luiz Lauschner
Postado por Luiz Lauschner

Quem tem cerca de quarenta anos lembra que em Manaus da década de 1990 só havia duas marcas de cerveja. Não estamos falando de alguns privilegiados que traziam algumas “de fora”. Durante muitos anos as duas maiores cervejarias, Brahma e Antárctica vinham adquirindo menores no Brasil todo. Com a fusão delas em 1999 e, consequente transformação em AmBev, o mercado brasileiro foi dominado por uma única fabricante. Ainda há algumas independentes, porém a participação delas não é grande.

A gigante Heineken continua sua carreira solo pelo mundo. A Kaiser, Schincariol, Itaipava, Cerpa e um sem número de menores, resistem bravamente em manter-se fora do grupo que abocanha marcas por nosso Brasil. Somente aqui a AmBev produz mais de trinta marcas, com cerca de cinquenta fórmulas em formatos que vão da tradicional garrafa de 600 ml à longneck, passando pela “latinha” e até pelo litrão, isso sem falar do chope que não passa pelo processo de pasteurização e é vendido em barris. Bebida não pasteurizada precisa ser consumida em duas semanas enquanto a cerveja, no Brasil tem a validade de seis meses.

Voltando aos anos noventa e anteriores, a Antárctica dominava o mercado com cerca de 90% da preferência popular. Deitava e rolava sobre a concorrente Brahma, colocando exigências descabidas e até ilegais aos donos de bar e mercadinhos que revendiam a cerveja. A exigência ilegal ficava por conta da chamada “venda casada”, em que o comerciante para ter “direito” à cerveja tinha de adquirir os piores refrigerantes do mercado, cujos nomes já caíram no esquecimento. Da família “Baré” (barécola,baré laranja, baré tutti fruti) só restou o guaraná, que ainda nos dias de hoje suplanta em vendas o próprio guaraná Antárctica e é também o preferido dos turistas.

Entre o descabimento havia uma rigorosa seleção de garrafas, em que, a critério do entregador, eram rejeitadas boas vasilhas para obrigar a compra de outras. Quem não pudesse comprar, simplesmente não recebia produto algum, uma vez que a nota fiscal não podia ser entregue parcialmente. Outra prática típica de “dono do mercado” era a entrega a menor da cerveja sem, contudo, diminuir a quantidade de refrigerantes.

O domínio da marca era tanto que o cliente não pedia cerveja pelo nome. Na grande maioria dos bares nem havia outra. Não se sabe porque a Brahma demorou tanto a produzir a cerveja Skol, cuja marca já detinha desde os anos 1970. Com o “lançamento” da Skol em garrafa em Manaus (ela foi pioneira na produção da cerveja em lata, depois alumínio), a cerveja Antárctica, pela primeira vez, tinha um sério concorrente pela frente. O cliente que não migrava da Antárctica para a Brahma, ou vice-versa, aceitava a Skol. Com a fusão das duas grandes, a venda da cerveja Antarctica despencou. Como uma empresa só é a dona de todas as marcas, não há prejuízo algum. Aliás, com tantas marcas, a empresa tem o cuidado de dar ênfase a uma ou outra durante um determinado período, dependendo do interesse dela. Marcas demais ao mesmo tempo no mercado não são fáceis de administrar.

Hoje, em Manaus também podemos degustar chopes locais, como o Battuta e Rio Negro, cada um deles produzindo quantidade maior que Brahma e Antárctica juntas produziam na época em que se deu a fusão. Cerveja não é uma bebida de todo dia, porém os que gostam do “pão líquido” não a dispensam nos finais de semana.

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