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Conheça histórias de sobreviventes ao País que mais mata transexuais no mundo

Redação..
Postado por Redação..

“O dia em que eu morrer quero ser lembrada por algo que eu fiz. Não como algumas amigas minhas que foram assassinadas. Quando nos matam eles não dão um tiro, eles querem exterminar: é facada, paulada… É para exterminar. É triste pensar que o simples fato de eu existir e assumir quem eu sou é uma afronta para alguém”. A reflexão é de Valeria Rodrigues, mulher trans de 37 anos. Ela já pode ser considerada uma sobrevivente. A expectativa de vida de transexuais no Brasil não passa dos 35 anos. A média nacional de 74,9 anos.

Um estudo recente feito pela Rede Trans Brasil mostra esse dado e também revela que, em 2016, 144 pessoas trans foram assassinadas no País. O relatório não faz diferenciação entre travesti e transexual e mostra que em segundo lugar na pesquisa está o México, com 52 homicídios (42% da média do Brasil).

Valeria sobreviveu às estatísticas e à vida real. Ela já sofreu xingamentos, constrangimentos, ameaças e agressões que poderiam tê-la matado. A mulher, que nasceu no Paraná, hoje é conselheira municipal de políticas para mulheres e população LGBT. Ela teve contato com a transfobia logo cedo quando, na quinta série, começou sua transição. Depois de passar por muitas situações constrangedoras, ela ficou com medo de voltar para a escola e parou de frequentar a instituição. Hoje, ela conseguiu voltar aos estudos depois de uma bolsa que conseguiu no programa Trans Cidadania.

— Me inscrevi, estudei tudo direitinho e estou terminando o ensino médio.

Aos 14 anos ela começou a trabalhar e sempre buscou levar conscientização para a população em relação às necessidades da população LGBT. Além disso, ajudava amigos que tinham alguma necessidade. Ela chegou a abrir as portas de sua casa para amigos e amigas que precisavam de um teto depois de serem expulsos de casa por familiares que não aceitavam as orientações sexuais e identidade de gênero dos filhos.

— Naquela época, se algum gay ou trans passava na frente de uma balada, botavam para correr.

Certa vez, em Franco da Rocha, ela conta que parou o carro em um posto de gasolina para ir em uma loja de conveniência para recarregar o celular, algo comum para a maioria das pessoas. Porém, quando se é uma pessoa trans, a situação não é tão fácil assim. Um homem e a namorada dele estavam no local e começaram a conversar sobre o fato de Valeria ser “menina ou menino”.

— Ele falou: “Não sei não. É traveco”. Eu olhei para o casal e balancei a cabeça como desaprovação. Aí ele veio pra cima. Me tirou do posto me dando murro no ombro, na cara. Era um homem forte. Eu corri, entrei no carro e voltei no dia seguinte para pagar a dona e conversei com ela. Desse dia em diante ela colocou um segurança 24 horas lá. Nessa época eu fiquei traumatizada.

Outra vez, no mesmo posto de combustível, um homem armado fez ameaças dizendo: “Quem é ‘veco’ vai subir, vai subir”. Valeria conta que aquele dia foi “bem apavorante” e que a pessoa trans passa por situações como essa todos os dias no shopping, no cinema…

— Sempre saímos de casa esperando qual será “a boa do dia”. Sempre vai ter. Cabe antes de sair de casa fazer um yoga (risos). Se não, vai ficar trancada em casa.

Ela também já passou constrangimentos ao usar o banheiro em locais públicos. Certa vez, estava em um mercado e precisou usar o local. Ela entrou no banheiro, que estava vazio e, quando saiu, foi puxada por um segurança do local.

— Ele perguntou: “Quem foi que te autorizou a entrar nesse banheiro? Você não sabe que essas pessoas assim não pode usar banheiro de mulher porque constrange as clientes”?

Ela explicou que iria usar o banheiro com o gênero que ela se identifica e tentou conscientizar o homem dando um cartão seu para que ele pudesse se informar mais sobre a situação das pessoas trans no Brasil. Neste momento, ele xingou a mulher e a polícia foi chamada para ajudar.

— Ao chamar a polícia, o policial me perguntou o que eu estava fazendo no mercado.

Hoje, Valeria também trabalha com a reinserção social e profissional da pessoa trans por meio do Instituto Nice, do qual ela é presidente. Por meio de parceria com empresas, ela consegue ajudar as pessoas trans a buscarem trabalhos de recepcionista e camareira, por exemplo. Além disso, ela trabalha com conscientização de crianças em escolas para que elas cresçam respeitando a diversidade.

— O Brasil precisa urgentemente de leis que nos amparem. Na cabeça do povo a gente só pensa em sexo.

Auto estima

Em um País que mata praticamente três pessoas trans por semana, trabalhar a auto estima é algo muito difícil para essa população. Paulo Vaz é homem trans e tem 31 anos. Ele, que é formado em design, resolveu atacar de modelo e mostrou sua beleza e simpatia. No começo do ensaio, ele estava nervoso, mas conta que foi se abrindo conforme músicas de Madonna e Lorde começaram a tocar.

— Na adolescência, eu passei a não gostar muito do meu corpo. Quando começou a crescer os seios, a mestruação… Foi terrível. Chegou um momento que eu engordei e decidi procurar um nutricionista e consegui emagrecer. Então comecei a hormonização.

Segundo ele, a grande chave para que as pessoas mudem sua percepção em relação à população trans é elas terem informação e educação nas escolas e nas universidades. Além disso, ele conta que as agressões sofridas por um homem trans são diferentes das mulheres trans.

— As pessoas perceberem mais as mulheres trans na rua do que os homens trans. As meninas trans, em sua maioria, são mais altas e têm um crescimento ósseo maior, e isso chama atenção fazendo ter uma leitura trans/travesti. E também porque a testosterona acentua mais os traços masculinos, engrossam a voz nos homens trans. Já os efeitos do hormônio feminino são diferentes nas mulheres trans/travesti.

Paulo Vaz, homem trans de 31 anos, fez um ensaio em que atuou como modelo mostrando beleza e simpatia
Lucas Àvila/Arquivo Pessoal
No começo do ensaio, ele estava nervoso, mas conta que foi se abrindo conforme músicas começaram a tocar
Lucas Àvila/Arquivo Pessoal

Fonte: R7

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