Covid-19: trabalhadores e usuários falam do desafio da proteção no transporte público

Foto: Clóvis Miranda/DPE-AM

Mais de 20 milhões de pessoas contraíram o novo coronavírus no mundo. No Brasil, passa de 100 mil as mortes por Covid-19.

A doença ainda faz parte do presente. Não tem vacina, nem medicamento específico para combater o vírus. O remédio em voga destes tempos se chama “proteção”, evite aglomeração, distanciamento social, álcool em gel…

As empresas que atuam no transporte de passageiros tiveram que se adequar a essas medidas.

A diretora executiva do Grupo HP Transportes, Indiara Ferreira, afirma que a empresa implantou um novo protocolo para evitar a propagação do novo coronavírus nos coletivos em Goiânia.

“A gente mudou totalmente o protocolo de limpeza, adquirindo produtos indicados pela Anvisa. Nós praticamente dobramos o número de pessoas que limpam os ônibus. Antes os ônibus eram limpos todos os dias, no final do expediente, dentro da garagem. Hoje nós fazemos essa limpeza com muito mais rigor e também é feita a limpeza nos terminais”

As Regras e protocolos foram instituídos pelos governos e agências reguladoras. Redução no número de passageiros, reforço na limpeza e trabalhadores com equipamentos de segurança são exigências comuns para viagens de trem, ônibus, barco, avião. Tem regra, mas a fiscalização é insuficiente para a implementação das medidas.

A Izabele Raierline, funcionária de um hospital de Brasília, revela que se sente insegura em usa o transporte público para fazer o trajeto de ida e volta do trabalho,
“Eu fico com muito de pegar Covid sem ser no hospital, onde eu trabalho, porque os ônibus estão vindo muito lotados. O ônibus tá muito sujo. Eu fico medo. E tem pessoas que não respeitam, tem pessoas que tiram máscaras, comem dentro do ônibus.”

Um projeto do Instituto de Fiscalização e Controle em parceria com o Ministério Público do DF e Territórios avalia o serviço de transporte público rodoviário no Distrito Federal e Entorno.

O “Como anda meu ônibus” colhe dados por meio de questionários respondidos por passageiros e trabalhadores do sistema. Oitenta por cento dos usuários disseram não ser possível manter o distanciamento dentro dos veículos. Noventa e quatro por cento dos motoristas e cobradores relataram não terem sido testados para a Covid-19.

Paulo César Silva, presidente do sindicato dos rodoviários de Belo horizonte, reclama que como se não bastasse a pressão do medo de contágio, a responsabilidade de controlar o número de passageiros e do uso das máscaras, os trabalhadores estão sendo agredidos.

“Nós tivemos a agressão de um trabalhador na região metropolitana, agressão física. Ele chegou a ter o supercílio cortado. Outro foi aqui na capital também, que teve o vidro do veículo quebrado e os estilhaços acabou atingido ele, por cobrar o uso das máscaras no interior do veículo.”

No Amazonas, uma medida drástica foi adotada. No Estado em que as águas dos rios, e não o asfalto, são responsáveis pelo ir e vir, o transporte fluvial de passageiros ficou proibido por quatro meses. Apesar de radical, a restrição salvou vidas. É o que aponta pesquisa da Universidade Federal do Amazonas.

Usando como base pesquisas realizadas em embarcações de outros países, como do Imperial College London, do Reino Unido, o estudo calcula que 1.200 vidas foram poupadas; e cerca de 123 mil pessoas deixaram de ser contaminadas pelo novo coronavírus no Amazonas por causa da restrição.

O Coordenador da pesquisa, professor Renan Albuquerque, destaca que as viagens – que podem durar de 12 horas a uma semana, são o principal fator de risco.

“Imagine passa sete dias, como uma rede muito próxima, menos de um metro, dormindo ao lado de uma pessoa que está assintomática. Certamente, naquele ambiente, essa pessoa, sem saber, vai fazer o espalhamento do vírus. Não só para o seu vizinho. Até 15 pessoas podem se contaminar e essas pessoas já podem começar a contaminar outras pessoas. Ou seja, no limite da situação, uma viagem de uma semana pode gerar a contaminação de toda a população dentro de um barco.”

O transporte de passageiros no Amazonas voltou a ser permitido em 16 de julho. Segundo o pesquisador, os impactos só poderão ser analisados nos próximos meses.

A fiscalização do transporte coletivo urbano é responsabilidade das gestões municipais. A ANTT – Agência Nacional de Transporte Terrestres é responsável pelos serviços de transporte rodoviário interestadual e internacional de passageiros no Brasil.

Segundo a Agência, desde o início da pandemia, foram apreendidos cerca de 600 veículos flagrados executando transporte clandestino de risco.

As Agências Nacionais de Transportes Aquaviários e de Aviação Civil não informaram dados sobre fiscalização.

Na próxima reportagem, vamos saber como será o amanhã, na opinião de usuários, entidades e pesquisadores.

As informações são do EBC