“Falaram que iam entregar a cabeça dele na bandeja”, diz advogado de preso injustamente por estupro

O inocente viveu a pior semana de toda a sua vida- foto: divulgação

“Já tinham passado a ordem dizendo ‘Vamos entregar a cabeça dele na bandeja’, supostamente dentro da cadeia falaram isso”, disse o advogado André Duarte, que está cuidando do caso do cozinheiro Francimar Bezerra da Cruz, 40, acusado e preso injustamente pelo crime de estupro contra uma menina de 12 anos, que inventou toda essa história para que os pais não descobrissem que ela faltou a escola para poder manter relações sexuais com um garoto de 15 anos que conheceu pela internet. Agora, todas as medidas necessárias serão tomadas para que os danos sejam reparados

O inocente viveu a pior semana de toda a sua vida, e tudo começou no dia 11 de outubro deste ano. Ele foi preso em flagrante por policiais militares, dentro da residência dele, após ter sido apontado pela garota por estupro ocorrido no Conjunto Jardim Paulista, bairro Aleixo, Zona Centro-Sul de Manaus.

A menina havia relatado em depoimento na Delegacia Especializada em Proteção a Criança e ao Adolescente (DEPCA) que estava à caminho da escola quando foi abordada por dois homens, que em seguida a levaram para uma casa, a trancaram e mantiveram relações sexuais.

  • Relato da menina

“Ela contou que estava indo para a escola quando passou por um rip rap, e também um bar, e que neste bar a seguiram, pegaram ela e a colocaram em um veículo modelo Gol, de cor preta. Eles a levaram para uma casa, e que ela mesmo disse em depoimento que não sabe como chegar nessa casa, mas que era uma casa velha. A menina afirmou que eram dois homens, sendo um branco, alto, forte, cavo, mancava uma perna e tinha tatuagem, o outro era baixo, moreno e cabelo enroladinho. E foi o homem branco que a levou pro quarto e estuprou, segundo ela, por algum tempo. Isto tudo consta no depoimento dado na delegacia”, disse o advogado do inocente.

Ainda no depoimento dela, a menina disse que por volta de 13h, a botaram no carro e jogaram nas proximidades da faculdade Esbam, no Adrianópolis. Diante desta afirmação, foi feito o Boletim de Ocorrência (BO).

“Quando ela chegou nesse horário em casa, falou para os pais toda essa farsa e então foram para a delegacia registrar o BO, e após isso o pai da menina por conta própria resolveu investigar e achou a tal casa apontado pela menina como sendo local do suposto estupro, de forma aleatória. E os moradores da casa de Francimar disseram para os policiais que não sabiam quem era menina e que nunca a tinham visto, e a garota o tempo todo afirmando que aquela era a casa”, contou o advogado.

  • A injusta acusação

Após isso, chegou uma informação para o pai da garota dizendo que tinham encontrado o veículo usado para cometer o crime contra ela, porém, esse carro localizado é modelo Gol, de cor verde claro (Posse de Francimar) o relatado pela menina era de cor preta.

“Localizaram o carro por meio de uma filmagem, em uma rua próximo de onde a menina teria dito que ocorreu o estupro. Conseguiram filmar a casa que fica nessa rua e viram que o proprietário do veículo saiu do carro às 6h50, com o sobrinho dele de 18 anos, que mede 1,80. E então disseram que era ele o tal estuprador. Quando foi 1h, a polícia acompanhada da menor, dos pais, e vários populares, bateram na porta de Francimar. A própria esposa dele foi quem abriu e recebeu a polícia, e então chamou o marido, que acordou atordoado com toda a movimentação. E então, perguntaram para a garota ‘É esse?’ e ela disse ‘É esse’! E o prenderam e levaram para a delegacia”, comentou Duarte. O carro de Francimar foi todo destruído.

  • Rotina de Francimar

Após a prisão e já na delegacia, Francimar negou todas as acusações, como qualquer outro inocente faria, e deu o relato dele contando toda a rotina e o que fez naquele dia. O homem é cozinheiro profissional, mas nos últimos tempos está trabalhando em um sucatão, que fica no Coroado, Zona Leste da capital.

Como de costume, Francimar saiu de casa às 6h50, deu carona para o sobrinho que estuda no bairro Aleixo, e seguiu para o Coroado e foi para o sucatão, por volta de 7h15.

“Já por volta de 9h, o patrão disse que teria um serviço em um galpão no Ramal do Brasileirinho, e Francimar pegou mais 3 colegas de trabalho, e seguiu para o local. Na Autaz Mirim, a vítima parou para abastecer e nós conseguimos essas imagens”, destacou André.

  • Testemunhas de Francimar na delegacia

No dia em que ele foi preso, o sobrinho e os colegas de trabalho estavam na delegacia para serem ouvidos. “Isso foi ignorado, e a menina o tempo todo dizia que era ele. Não tinha outra pessoa para comparar, confundir ou apontar. Era somente ele. Foi feito também requisição para exame”, comentou.

“Eu vi verdade no que ele fazia, e o que ele falava batia com minhas confirmações. Pude conhecer um pouco da vida dele, que trabalhou desde criança. Sem contar que é muito amado por todos”, desabafou.

  • Chupão no pescoço

A menina ‘matou’ aula após combinar com um namoradinho de internet. “O garoto pegou ela na parada de ônibus no horário da escola, de lá foram de Uber para a casa dele no Santo Agostinho e lá mantiveram relações sexuais, parece que a primeira vez que ela fez isso, e ela saiu da casa dele às 11h e foi de ônibus para a casa dela. Só que como ela é uma criança e não chegou no horário certo, os pais ficaram preocupados e foram até a escola dela e constataram que a menina não havia ido, e então a preocupação só aumentou e todos se desesperaram. O ônibus que ela embarcou atrasou e então só chegou em casa às 13h”, afirmou o advogado.

Na relação sexual, teve um chupão no pescoço dela. “Diz que ela também se arranhou e rasgou a roupa dela e chegou em casa contando essa história toda”, frisou.

  • A verdade dita pela boca da menina

Após a prisão do Francimar, o pai da garota quis procurar o outro envolvido, já que a menina havia afirmado que dois a pegaram e estupraram. E então ele foi nos locais em que a menina disse que passou, pegou as filmagens e não batia com os relatos dela, e então a garota começou a entrar em contradição.

“Acharam uma filmagem dela andando tranquilamente no horário em que ela disse que foi ‘jogada’ pelos estupradores, e então a mãe pressionou e ela abriu o jogo e falou toda a verdade”, destacou o advogado.

  • Ameaças

A família dele ficou com muito medo e precisou abandonar a casa, pois foram ameaçados e por pouco não fizeram um mal maior para eles. Até hoje ainda não voltaram.

  • Soltura

“Ainda tentamos que a delegada pudesse ouvir novamente os fatos. No sábado à tarde fomos na Audiência de Custódia para falar com o juiz para que ele pudesse ouvir novamente o depoimento da menina, e no sábado à noite a garota deu um novo depoimento, peguei essa cópia e domingo de manhã juntei e pedi relaxamento da prisão dele e na tarde de domingo (15) Francimar foi posto em liberdade”, disse Duarte.

  • CDPM e ameaça de morte

Já no Centro de Detenção Provisório Masculino (CDPM) houve muita pressão psicológica. E até mesmo um dos presos falou para que os detentos não fizessem nada com Francimar, pois sabiam que ele estava falando a verdade.

Quando saiu o alvará de soltura, a maioria dos detentos se ajoelharam e pediram perdão para Francimar.

“Sabemos que os presídios são dominados por facções, e tinha a informação de que já tinha ordem para matá-lo. Tem até um vídeo deles falando que iam entregar a cabeça de Francimar na bandeja, que iam degolá-lo e etc. Mandaram para a família e todo ficaram desesperados. Foi algo terrível”, afirmou.

  • Processo

“Vamos tomar as medidas necessárias para que seja reparado esse dano mínimo. O Estado e todas as pessoas que tem culpa nessa situação e tiveram irresponsabilidade. Pois uma coisa é noticiar a prisão, outra coisa é criar histórias. Estamos com tudo guardado, já que teve coisas que foram criadas”, afirmou o advogado de Francimar.

Esclarecimento DEPCA

A delegada Juliana Tuma, titular da DEPCA, comentou que realmente a menina disse que inventou toda essa mentira. “Esse depoimento serviu como base para a Justiça revogar a prisão dele, mas o processo continua”, finalizou.

E para esclarecimento, a delegada informou que não foi a responsável pela lavratura do auto de prisão.

“Eu não fui a responsável, e sim a delegada platonista, pois eu estava de férias. E a mesma me disse que a menina foi uma atriz,  já que chorava, se tremia e estava toda arranhada. O exame de conjunção carnal deu positivo, mas não iríamos adivinhar que ela já havia mantido relações com o namorado. Então, não imaginávamos que ela estaria mentindo,  pois isso não acontece com frequência na DEPCA”, esclareceu.

Por: Kamyla Gomes