Pesquisa com pacientes da FCecon aponta depressão e baixa autoestima como resultado de retirada do pênis

Foto: Paulo Bahia e Arquivo/FCecon

Depressão, baixa autoestima e ansiedade são alguns dos sentimentos que afetam homens que passam pela penectomia – retirada total ou parcial do pênis –, em decorrência de câncer. Esse é o resultado parcial de uma pesquisa realizada com pacientes portadores desse tipo de neoplasia na Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (FCecon), órgão vinculado à Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM).

Denominado “Masculinidades revisitadas: Concepção de homens com câncer de pênis sob o viés da Fenomenologia de Heidegger”, o projeto é conduzido pela mestranda do Programa de Psicologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), psicóloga Larissa Migliorin da Rosa, e busca entender a vida antes e após o diagnóstico do câncer de pênis. Segundo ela, quando a doença é descoberta, esses pacientes sofrem alterações físicas e emocionais, às quais se soma a retirada do pênis quando o câncer não é tratado a tempo.

O câncer de pênis é causado pelo Papilomavírus Humano (HPV) de alto risco associado a outros fatores, como a fimose e a não higienização adequada do órgão, explica o urologista da FCecon e membro da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), Giuseppe Figliuolo.

“A unidade hospitalar registra 15 casos desse tipo de neoplasia ao ano. No Amazonas, a doença atinge principalmente homens entre 21 a 55 anos, devido à falta de informação e higiene”, alerta.

Pesquisa

O projeto iniciou em 2019 e conta com o apoio da Diretoria de Ensino e Pesquisa (DEP) e do Serviço de Psicologia da Fundação Cecon, que auxiliam com a identificação dos pacientes. Foram entrevistados cinco homens, entre 57 e 60 anos, que passaram pela penectomia. Migliorin também conta com bolsa de estudos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Perfil socioeconômico

De acordo com Migliorin, são pacientes com baixos níveis socioeconômicos oriundos do interior do Amazonas. “Devido às dificuldades logísticas e econômicas, esses homens demoraram a buscar o tratamento e, por conta do estágio avançado da doença, têm o pênis amputado. Soma-se a tudo isso o sofrimento por estar distante da família e o medo da morte. São situações que causam restrições físicas e emocionais”, lamenta.

Sexualidade 

Segundo a psicóloga, após a retirada total ou parcial do pênis vem o pensamento de como será a vida sexual, o relacionamento com a esposa e/ou parceira. Ela explica que o homem relaciona o pênis com a sua identidade, masculinidade, de modo que a perda acarreta questionamentos quanto à sexualidade.

“Normalmente, esses pacientes vêm de uma relação duradoura, então a cura da doença é mais importante para a parceira que a relação sexual. O homem relaciona sexo apenas com penetração, porém é preciso dar novo significado ao ato, buscando novas formas de prazer, novas zonas erógenas. Dessa forma, o sexo pode se tornar até melhor do que antes”, frisa Migliorin.

A psicóloga do Serviço de Psicologia/FCecon, Larissa Lins, explica que existe uma cobrança social de uma invulnerabilidade do homem, devido a uma visão deturpada de masculinidade. “O homem entende que buscar cuidado é uma função passiva, que está ligada apenas ao mundo feminino. Infelizmente, isso o impede de procurar cuidados médicos”, pontua.

Atendimento

Segundo Larissa Lins, os pacientes da Fundação Cecon recebem atendimento individual, de casal ou familiar no âmbito ambulatorial, o qual dependerá da demanda, e os internados são acompanhados no leito. Ela explica que, durante o acompanhamento psicológico, o paciente realiza reflexões de autovalorização e de tolerância quanto os desafios que sustentarão sua motivação e saúde mental neste momento delicado.

“Os aspectos da vida do homem referentes à sua capacidade de provimento familiar, proteção aos entes, virilidade e sexualidade são estruturantes na identidade masculina. É por isto que o adoecimento oncológico na área sexual e reprodutora do homem o afeta tanto, pois ameaça suas atividades cotidianas em todos estes fatores citados”, destaca Larissa Lins.

Com informações da assessoria