Sinal de alerta e Rio Negro em perigo: estudo detalha poluição em igarapés de Manaus

foto: Jamile Alves/Sema

Um levantamento apontou indicadores negativos nos igarapés da área urbana de Manaus que desaguam no Rio Negro, devido à influência humana. A Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) concluiu, nesta sexta-feira (21), um monitoramento que faz parte da primeira etapa do Programa Qualiágua, executado em conjunto com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).

O Qualiágua é um Programa de Estímulo à Divulgação de Dados de Qualidade de Água, criado com o objetivo de padronizar a análise das águas superficiais em todo o país. A proposta é que a base uniformizada de dados propicie referências comparativas entre os estados e conduza a decisões acerca da gestão dos recursos hídricos pelo poder público.

“Padronizando a metodologia de análise em todo o Brasil, por meio do Qualiágua, nós conseguiremos ter, pela primeira vez, um panorama da real situação dos recursos hídricos do nosso estado em relação ao restante do país. Essa informação mais precisa é determinante para subsidiar as políticas públicas para utilização mais otimizada da água na maior bacia hidrográfica do mundo”, ressaltou o secretário da Sema, Eduardo Taveira.

No Amazonas, as primeiras análises do Qualiágua perfizeram os principais igarapés de Manaus até a desembocadura das águas no rio Negro. As coletas foram realizadas em 10 pontos, distribuídos entre o Negro, o rio Tarumã-Açu, rio Puraquequara, igarapé do Quarenta, igarapé do São Raimundo, igarapé do Franco e igarapé do Mindu.

“Nós fizemos o monitoramento nos igarapés, agora, no período seco, mas a análise também será realizada no período chuvoso, para que a gente possa comparar o comportamento dos parâmetros físico-químicos das águas nessas duas situações. Será um processo contínuo realizado ao longo de cinco anos”, contou o assessor técnico de Recursos Hídricos da Sema, Izaias Nascimento.

Análise preliminar

Para a coleta das informações, técnicos da Sema utilizaram uma sonda multiparâmetro para medir o oxigênio dissolvido na água e a saturação, o pH, a condutividade elétrica, turbidez, bem como a temperatura do ar e da água, segundo explica o supervisor de Recursos Hídricos da Secretaria, Mozaniel da Silva.

“Primeiramente, nós fizemos a análise dos parâmetros físico-químicos da água em 10 pontos de Manaus. Ainda é preciso avaliar os parâmetros físicos, físico-químicos, químicos, biológicos e microbiológicos desses corpos hídricos, mas os resultados preliminares já são indicadores de poluição, sobretudo nos igarapés dentro da área urbana, que têm maior interferência da ação antrópica”, apontou.

De acordo com o supervisor, alguns indicadores específicos chamam a atenção, como os índices de pH. “Quanto menor o pH, mais ácido é o meio. Os rios do Amazonas têm naturalmente um pH ácido por conta da decomposição contínua de matéria orgânica. O que nós percebemos é uma tendência de diminuição da acidez, principalmente nos igarapés do Franco e do Mindu, que recebem muito despejo de resíduos domésticos”, disse.

Segundo Silva, o indicador acende um alerta, sobretudo para o igarapé do São Raimundo. “O São Raimundo recebe as águas do Franco e do Mindu, antes de desembocar no rio Negro. A questão é que as águas desses dois igarapés estão chegando no São Raimundo, com um pH básico, isto é, diferente do que é considerado ‘normal’. A longo prazo, isso pode impactar também no pH do rio Negro, mudando a característica natural do rio”, explicou.

Além disso, o monitoramento inicial apontou que o igarapé do São Raimundo possui o segundo menor índice de oxigênio dissolvido nas águas. A pior taxa foi observada no igarapé do Quarenta (0,27 mg/L). “Em termos simples, significa dizer que não há vida nesses locais por causa da baixa oxigenação”, exemplificou o técnico Izaias Nascimento.

“É importante destacar que a água que abastece nossas casas vem do rio Negro. Hoje, ele ainda consegue fazer o seu processo de autodepuração e restaurar suas características ambientais naturalmente. Mas, com o passar o tempo e o aumento da poluição, ele pode perder essa capacidade aos poucos”, concluiu Silva.

Próximas fases

Os igarapés e rios dos municípios situados na Região Metropolitana de Manaus (RMM) serão os próximos a serem analisados pelo Qualiágua. Serão coletados, até fevereiro de 2021, dados em Manacapuru, Itacoatiara, Itapiranga, Careiro da Várzea, Novo Airão, Presidente Figueiredo, Rio Preto da Eva, São Sebastião do Uatumã, Silves e Urucará, totalizando inicialmente 49 pontos de monitoramento.

A meta do Qualiágua é realizar a análise em 144 pontos no Amazonas, até o final de 2025. Os dados vão compor a Rede Nacional de Monitoramento da Qualidade da Água (RNQA) e serão armazenados no Sistema de Informações Hidrológicas (HidroWeb) da ANA, com acesso público garantido ao cidadão.

Com informações de assessoria