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Tenho pena dos agricultores

O mesmo estudo revela que onde três pessoas plantam,mais de duzentas outras se alimentam deste produto.
Luiz Lauschner
Postado por Luiz Lauschner

Toda vez que vou à feira ou ao supermercado e me deparo com preços baratos dos hortifrutigranjeiros, comemoro a economia que faço no momento. Contudo, tendo passado a infância e adolescência na roça e a juventude toda no meio rural, não posso deixar de sentir os dois lados da moeda. A notícia do apodrecimento de tomates na lavoura, porque o valor de mercado não pagava o preço da colheita e da embalagem, estarreceu a muitos. Não a mim.

É sintomático que, quando o tempo ajuda, o governo incentiva, a praga não consome e a produção vem boa, o mercado se encarrega de tirar do bolso do produtor o lucro que ele poderia obter. Então, no ano seguinte, planta menos daquele produto e o preço sobe. Para abastecer o consumo, busca-se o mesmo produto no mercado externo para que o consumidor não saia prejudicado. O produtor, novamente vê seu ganho virar fumaça.

A maioria dos consumidores não sabe que para plantar e produzir há necessidade de uma grande confluência de fatores, caso contrário o tomate nosso de cada dia não chega à mesa com preço aceitável. O preparo do solo, a escolha da semente, o adubo do tipo e quantidade certas, a manutenção da limpeza, o cuidado com as pragas etc. deverá ser pago pelo consumidor e deixar sobrar dinheiro para quem faz todo o processo inicial. Junte-se a isso o fato que, durante todo o processo de produção, não pode haver o menor descuido. Assim, não há final de semana nem feriado que possa ser comemorado longe do local de trabalho. Junte-se também o constante apelo a São Pedro para que o tempo seja propício. Quando o produtor rural se põe a criar galinhas, porcos ou vacas leiteiras, não pode se dar ao luxo sequer de ter um happy hour. Não que ele precise seguir a rotina do trabalhador da indústria, por exemplo, mas jamais pode descuidar de seus afazeres. Ele não pode simplesmente desligar animais e plantas durante a noite ou no final de semana para religar quando está apto a produzir.

Ainda há atravessadores de todo tipo e naipe. O pior de todos é o governo que nunca deixa de arrecadar. A péssima manutenção das rodovias é um fator de elevação de custo do produto na prateleira do supermercado. Coisa que o produtor rural, o transportador nem o distribuidor podem administrar. A carga tributária não perdoa o insumo antes da produção, o produto em si, o combustível, a embalagem, a mão de obra e a comercialização. Por esses cálculos é que economistas chegaram a conclusão que somente pífios onze por cento de um produto agrícola ficam para o agricultor. Em algumas ocasiões isso é menos que um terço da renda de quem simplesmente expõe e vende. O mesmo estudo revela que onde três pessoas plantam,mais de duzentas outras se alimentam deste produto.

O êxodo rural não aconteceu apenas porque o grande número de filhos dos agricultores não podia dividir a terra entre si, mas porque a agricultura não é um negócio tão bom quanto se imagina. Embora seja muito difícil passar fome morando em cima da terra, há milhares de outras atividades mais lucrativas. Ainda existe uma boa dose de tradição em quem continua agricultor, muito mais forte que a atração pelo lucro. Tradição e vocação são benéficos em qualquer atividade, porém quando um negócio perde seu estímulo financeiro, pode causar prejuízos a todos os consumidores.

Comemoremos os preços baixos de produtos agrícolas, mas tenhamos o cuidado de entender os altos preços da entressafra.

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